sábado, 24 de setembro de 2016

Um olá




Hoje vou só colocar essa foto. Adoro fotos tiradas com tele-objetiva, bem de longe, porque entre a câmera e quem é fotografado, tem a naturalidade.

Ela brincava com o tubinho vazio do filme. Estávamos no jardim da casa de meus pais, nossos olhinhos mais pequenininhos ainda por causa da luz.

Vendo os extratos dos bancos aqui, anoto que preciso preparar o orçamento de outubro. Daqui a pouco já vai chegar de novo o Natal.

As câmeras de hoje são digitais, meu cabelo tá grisalho, sem óculos só enxergo vultos. Ela é muito mais alta do que eu e as imagens e histórias tomaram vulto em sua vida.

Nessa foto só tem duas pessoas, mas na verdade tem três: a terceira foi quem nos viu e registrou assim, o pai dela. Sempre vejo três nessa foto.

Ele agora foi comprar um vinho pro jantar, ela tá dormindo um pouco, e eu dei de flanar pelo blog só pra dizer um olá.




sábado, 17 de setembro de 2016

Amamentação: o que o Design tem a ver com isso?



Estes são Raphael e Ingride, alunos do curso de Design da PUC-Rio, clicados pelo pediatra Marcus Renato de Carvalho em uma das reuniões que eles tiveram para o desenvolvimento do símbolo da ABRACAM - Associação Brasileira de Consultores em Amamentação.

De onde pode ter surgido o interesse do grupo por um tema como esse, cuja importância - nesse cenário de consumo de leites artificiais e mamadeiras - tem sido uma causa quase que exclusiva dos profissionais da saúde?

A linha do tempo é assim:

1. eu estava fazendo meu doutorado sobre os caminhos tortos que o Design vem tomando ao se hibridizar com o marketing e gerar produtos com o objetivo de incrementar vendas;

2. fiz uma visita ao Instituto Fernandes Figueira pra mostrar projetos de alunos da PUC voltados para bebês internados (colchão para encubadora, de Fernando Carvalho e um folheto para facilitação de doação de leite materno), em uma reunião com João Aprígio e Mariana Ribeiro - aluna que me acompanhou, e que depois veio a desenvolver o material de divulgação da Rede Iberoamericana de Bancos de Leite Humano como Projeto-Conclusão do curso de Design;

3. seguindo para o Laboratório do IFF, Franz Novak - ao saber que eu era designer, me falou que a mamadeira era um produto muito perigoso para os bebês. Eu fiquei PASSADA, e dias depois descobri que ela, a mamadeira, poderia ser tomada como o objeto-símbolo de minha pesquisa de doutorado;

4. Saí feito uma louca pesquisando o assunto, defendi a tese "O desdesign da mamadeira" (tendo a presença luxuosa de João Aprígio na banca) e publiquei o livro algum tempo depois, com a presença luxuosa de um texto de Franz Novak na orelha e apresentação de Rosana de Divitiis, presidente da IBFAN Brasil;

5. As irmãs gêmeas Maria de Lourdes Sette e Fátima Santos decidem adotar meu livro na disciplina "Análise e produção do texto acadêmico", oferecida pelo Departamento de Letras aos calouros do Curso de Design;




6. Um dos alunos de Lourdes é Raphael (o menino que aparece na primeira foto desse post), e ela prosseguiu levando esse conhecimento às suas turmas, como demonstra a foto abaixo, do primeiro semestre de 2016, clicada após a minha visita á turma;



7. Raphael me procura em março desse ano, dizendo que quer muito trabalhar com o tema de meu livro em seu Projeto IV, e me pedindo subsídios para convencer sua equipe a fazê-lo. Marcamos uma conversa para alguns dias depois, ele trás Ingride e ela sai apaixonada pela questão;

8. Eles desenvolvem o trabalho em conjunto com Marcus Renato, me procuram eventualmente para discutir layouts e o apresentam finalizado às professoras Cláudia Bolshaw e Vera Damazio, diante dos colegas de turma, eu e Marcus. Tiraram um redondo DEZ, e veja aqui a apresentação do projeto.


Bom, o projeto acabou não sendo adotado pela associação. Incomodou o fato de a equipe ter entendido que seria um caminho coerente partir do símbolo do órgão internacional para a definição do nacional. E foi justo essa escolha que me encantou... uma escolha tão respeitosa ao movimento mundial...

Mas nada foi perdido, só ganhamos, todos!

Outro dia Raphael veio falar comigo no campus, do quanto eles cresceram, do quanto foi incrível desenvolver o projeto, do quanto adquiriram em sensibilidade, conhecimento, prática, maturidade, conscientização, capacidade crítica e criativa.

E eu fico aqui pensando: me doeu descobrir tudo o que descobri sobre a mamadeira, mas às vezes, ao encarar um verdadeiro touro, podemos colher muitos louros, e como os tenho colhido :o)

Parabéns, queridos, esse conhecimento vale ouro!


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Mamadeira, órtese ou prótese (uma reflexão)



Em tempos de Paralimpíada, tenho pensado muito no quanto a inventividade, criatividade e persistência dessa nossa espécie pode gerar aparatos capazes de minimizar problemas, das mais diferentes naturezas, que caracterizam esse nosso mundo.

Visitando o Science Museum, em Londres, fiquei impactada com essas prótese para crianças vítimas da Talidomida (medicamento que foi receitado como atenuante para o enjoo de gestantes, acarretando algumas gerações de crianças sem membros - ora pernas, ora braços). O remédio foi sendo proibido no mundo, o que tardou a acontecer no Brasil.




Daí fui procurar o significado dos termos "órtese" e "prótese".

As órteses são aparatos que auxiliam um membro humano, aumentando sua performance. Já as próteses, substituem um membro inexistente. Ou seja, os óculos são uma órtese e o que temos na imagem é uma prótese, já que as crianças não têm as pernas ou partes delas.





Amy Purdy, a bailarina que nos encantou na cerimônia de abertura das Paralimpíadas, se utiliza de próteses, e achei incrível a concepção de sua dança, tendo um robô, uma máquina como par. Graças àquela inventividade e obstinação citada no começo desse texto, a tecnologia surge e contribui enormemente para que ela deslize ao som da música, com tanta graça e leveza.

Mas há situações em que essas definições não resolvem tudo...

O que dizer daquele momento em que recorremos à calculadora do celular para fazer contas simples? Temos o órgão, o cérebro, e ele é capaz de resolver a operação matemática. Mas cada vez ele é menos utilizado. Isso também se aplica a inúmeros outras operações e atividades que somos plenamente capazes de realizar, mas entre nós e a tarefa se interpõem objetos e produtos dos quais passamos a depender intensamente, muitas vezes atrofiando nossas capacidades naturais.

É claro que isso é complexo e tem pros e contras. A invenção do alfabeto, por exemplo, reduziu nossa capacidade em memorizar e quase inabilitou a história oral (envolvendo nesse processo o papel das pessoas idosas). Mas possibilitou o registro e a democratização do conhecimento. Isso é muito e bom também.

E o que pensar das mamadeiras? Órteses ou próteses?

Acho que as mamadeiras exigem mais conexões de raciocínio antes de poderem ser encaixadas nessas definições...

Se órteses auxiliam a performance de um membro, nos deparamos aqui com uma externalidade, sei lá... porque o seio materno está fora da criança, está na mãe. E a mamadeira não aumenta a performance do seio. Ao contrário, o uso da mamadeira a reduz, uma vez que com a diminuição da sucção, a produção de leite materno é interrompida.

Então será a mamadeira uma prótese? Acho que sim, uma prótese que entra no lugar do seio e da amamentação, mas tantas vezes sem que ela seja efetivamente necessária. Ou seja, o seio está lá, a amamentação se faria possível em muitos casos, mas opta-se por não utilizá-la, atrofiando-a, substituindo o seio pela mamadeira.

Uma prótese, como a calculadora do telefone celular, cujo uso - influenciado pela cultura industrial e do consumo- se torna quase involuntário.

E me vem à memória um paralelo traçado por Andrew Radford (coordenador da Baby Milk Action):

Os aparelhos de diálise são capazes de realizar as funções dos rins quando necessário; a mamadeira pode realizar a função do seio materno em caso de necessidade. O problema é que ninguém propõe que os aparelhos de diálise substituam os rins, mas é proposto que a mamadeira substitua o seio materno.

E esse paralelo me conduz a um parágrafo central em minha pesquisa:

Seria mesmo estranho que as inúmeras situações em que se faz necessário uma alternativa à amamentação não desencadeassem o desenvolvimento de produtos por uma sociedade inteligente e inventiva. O problema reside no quão adequada e eficaz vem demonstrando ser a alternativa criada e no grau de adesão que ela vem sendo capaz de suscitar, apesar dos graves problemas e impactos que pode provocar.

O fato é que nada pode superar ao brilhantismo da solução com que a natureza nos dotou nesse caso. Costumo dizer: é tecnologia de super-ponta!




domingo, 4 de setembro de 2016

Sobre bandeiras



Muitas bandeiras vêm tremulando em todo o mundo, em defesa das mais variadas causas.

Quando avistei a capa desse mês da revista Vogue na banca de jornais aqui da esquina, identifiquei uma bandeira a tremular.

Não resisti em comprar a revista, certa de que haveria uma matéria com Carol Trentini, onde a questão da amamentação seria abordada. O que encontrei foi um pequeno texto sobre a modelo, falando de sua carreira e família, além de uma justificativa da escolha da foto no editorial que fazia um paralelo entre a gravidez e o momento do lançamento mundial das coleções, entendido como uma espécie de nascimento após a gestação.

No princípio fiquei decepcionada, mas depois pude reconhecer o imenso valor dessa produção.

Precisamos ver mulheres amamentando, naturalizar imagens assim, deparando com elas em qualquer lugar, porque o cenário de consumo contribuiu imensamente para censurar crianças ao seio e naturalizar mamadeiras e fórmulas artificiais.

E na leitura da mensagem percebemos de imediato a beleza da fotografia sob o logotipo da revista e, imediatamente depois lemos "NEW AGE" (Nova Era), compondo uma só informação aos olhos do observador, quer isso seja por ele percebido objetiva ou subliminarmente.

Nessa NOVA ERA a amamentação ganha espaço, e já são muitas as ocasiões em que repórteres e jornalistas, modelos e artistas, políticas e pessoas públicas em geral vêm bem utilizando o espaço que têm na mídia para nela figurar alimentando seus bebês.

Muitas bandeiras tremulando. Esta, sem dúvida, uma delas.

E meu reconhecimento à revista por ter aberto esse espaço com essa composição estritamente entre imagem e mensagem escrita, fugindo do óbvio. O resultado é muito forte.


quarta-feira, 20 de julho de 2016

Os bebês e o mundo...



Esse bebê não está fantasiado de astronauta, como pode parecer à primeira vista. Na verdade, esta é uma notícia "tranquilizadora", publicada em jornal britânico, alguns anos antes da Segunda Guerra Mundial.

Trata-se de um capacete anti-gás venenoso para proteger as crianças pequenas, cabendo a seus cuidadores a tarefa de bombear o ar por intermédio de um fole (veja detalhe na imagem).

O livro Wartime childhood, de Mike Brown (Shire Library), conta que o gás venenoso foi uma arma muito utilizada durante a Primeira Guerra. Procurando defender-se das terríveis consequências dessa estratégia do inimigo, em 1936 foi desenvolvido o artefato, chamado de Baby-bag.

O autor relata as medidas tomadas pelo governo britânico na preparação da sociedade para o enfrentamento da guerra que se aproximava, com foco nos esforços direcionados às crianças, inserindo em sua rotina simulações de evacuação, construindo abrigos, criando atividades lúdicas (o tanto quanto possível) para ambientar os pequenos com a realidade que lhes bateria à porta.

E no cantinho de uma das páginas do livro, em formato muito reduzido, eu deparei com a seguinte imagem:




Mal dá pra entender ... procurei na internet e encontrei mais essa. A enfermeira em primeiro plano carrega todo o aparato (com o bebê em seu interior) por uma alça. E então compreendemos o motivo de chamar-se Baby-bag.





Fiquei pensando em quantas vidas hão de ter sido salvas por esse produto, pensando na equipe de profissionais que o desenvolveu (que imenso desafio criar algo para a defesa de crianças tão pequenas!), pensando também no misto de dificuldade e alívio das famílias em lidar com tal situação e de ter um recurso pensado com antecedência e amplamente disseminado para enfrentar período tão crítico...

Por quê esse assunto no Mamadeira Nunca Mais?

Pra dizer que os produtos podem sim ser pensados pra nos proteger, e não para nos fazer consumir e nisso nos enganar quanto à sua segurança.

E que o Design -essa atividade que tanto prezo- tem na realidade atual um panorama extenso pedindo por projetos inovadores, pois como diz Paola Antonelli, curadora de Design do MOMA,

"o desafio que sempre se apresenta à profissão é o de contribuir para tornar as mudanças viáveis, compreensíveis e acessíveis às pessoas, provendo proteção e segurança, sem sacrificar a necessidade de inovação e invenção".



domingo, 17 de julho de 2016

Aniversário, duração, continuidade, atuação





Gosto de aniversários. Como está no título, eles são a marcação de coisas que duraram, que continuam e que existem por sua atuação. Isso também se reflete naquela lojinha de rua que, apesar de tantos revezes e de tanto tempo transcorrido, permanece ali, firme e forte (mesmo que às vezes nem tão forte), sinalizando a altura em que estamos naquela transversal, nos garantindo encontrar determinado produto, com aquele vendedor que até já cumprimentamos ao passar por ali, naturalmente.

No ambiente de iniciativas em prol da amamentação, então, a gente vê durarem atuações que questionam toda uma cultura, cultura de consumo, de pressa, de ansiedade. E como essas iniciativas duram :o) ! Grandes, pequenas, imensas, locais, nacionais, globais, duram porque têm consistência. E muito a fazer.

Ontem estive presente à comemoração dos três anos do site "Amamentar é". Foi um encontro super bacana, com falas da mentora da ideia, Chris Nicklas, de seus parceiros pediatras Ana Heloisa Gama e Daniel Becker, com perguntas e participações de um público interessado e cheio de experiências e questões a compartilhar.

O tempo é muito bem empregado quando dedicado a conversas assim. É dar a merecida importância àquilo pelo que tantas vezes se "passa batido" na correria dos dias.

Muitos anos de vida à atenção e cuidado com a vida.

domingo, 19 de junho de 2016

Uma exposição perturbadora




Estou chegando da exposição Com-ciência, da artista Patrícia Piccinini, de Serra Leoa.

Eu resisti um pouco a dedicar tempo em visitá-la. Achava que os trabalhos giravam muito em torno de conceitos fantasiosos, e não me interessam muito as produções fantasiosas...

Mas fiz bem em comparecer, porque logo entendi tratar-se de uma crítica a essa coisa doida de delegarmos aos produtos e às coisas tarefas que são nossa responsabilidade. No meu entender, a artista faz as seguintes indagações: o que acontecerá se a ciência prosseguir no caminho de gerar frutos que venham a nos servir de alguma forma? Que nível de autonomia os produtos poderão atingir? E que novo plano de vida e de relações poderá resultar disso?

Além das já costumeiras fotos tiradas pelos visitantes da mostra - o que prossigo estranhando e desgostando - reparei no encantamento das crianças com os seres de Patrícia. Quanto mais esquisitões e diferentes, mais seus olhos brilhavam de encantamento e afeto, mais eles queriam deles se aproximar.

Então cheguei à escultura mais aflitiva da exposição, o ser que amamenta o bebê.



Alimentar bebês é uma tarefa que tantas vezes, e há tanto tempo, a cultura do consumo nos conduz a delegar. Às mamadeiras. Aflitiva porque aqui se delega a amamentação a um ser geneticamente projetado para fazê-lo. Quanta tristeza nessa figura, quanta distância nesse olhar, que projeção terrível chegarmos a cogitar que as coisas um dia poderão chegar a esse ponto...



A partir daí fui vendo a tudo como um substitutivo de nós, de nosso afeto e cuidado. E compreendendo muito bem o quanto as crianças receberiam amorosamente esses seres. Se elas teriam algo a perder? Provavelmente, mas encontrariam um ponto bom de equilíbrio.  Já os adultos teriam muito, muito a perder ao ceder esse lugar de aconchego e proximidade com seus pequenos a esquisitos mas encantadores servos da mentalidade contemporânea.

A exposição se encerra no próximo domingo. Recomendo.